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PROLEGÔMENOS
Não há, absolutamente não há outro caminho senão o que ensinamos. Render-se às mãos vencidas pela demonstração é próprio do matemático: opor-se a ela não é próprio nem mesmo de um homem, quanto mais de um matemático. Portanto, a partir desta edição do ano, ninguém jamais se persuadirá de que Clavius é matemático, a menos que o saiba de outra fonte; nunca acreditará nos que o juram. Mas que os erros de Clavius sejam corrigidos, ou deixados intactos; que seu ano seja emendado, ou continue sempre exposto deformado como está, isso não nos diz respeito nem nos importa. Pois nisso não está depositada nossa fortuna. Cuidamos de outra coisa. Mas, como ele foi tão atrevido a ponto de procurar que aqueles que expuseram abertamente seus erros vergonhosos fossem chamados de improbos por edito, eu o mando ser açoitado, eu o mando chorar entre as cátedras de seus próprios discípulos, para que aprenda quão digno ele é desse nome, e quão indignos dele são aqueles que ele cuidou de afetar com tal apelação. Pagará pena suficiente a nós, à posteridade e a todos a quem nada menos compete que o nome de improbos, enquanto aquela ridícula edição do ano subsistir — coisa que tanto nos convém que subsista, na medida em que dela nos venha o castigo de sua temeridade. Pois ela não é dedicada apenas à memória dos santos, mas também aos erros de Clavius, de modo que ninguém minimamente perito nessas matérias lança os olhos sobre ela sem que logo no limiar lhe ocorram aqueles augustos colégios de *Epactae* concolores e discolores. Pois então: improbos são aqueles que apontaram os erros de Clavius — quem, a partir das pouco boas tabelas Lilianas, publicou um método de *Epactae* de longe péssimo, removeu os Termos Nicenos de seu lugar, transferiu as *neomeniae* para sedes alheias, como se impusesse freio ao movimento da Lua? Mas seus erros nos Cânones já expusemos suficientemente. Se lhe doer terem sido por nós tratados em latim demasiado rigoroso, saiba que é recebido por nós segundo seu mérito, e que se trata de resposta, não de maldição; e que aqueles que indevidamente foram chamados improbos podem com mérito retorquir tal nome àqueles que dele são dignos. Por isso falamos demasiado dele, levados pela justa indignação, porque o homem lutoso fez com que fôssemos chamados improbos por edito público. De outro modo, como acerca de outros rústicos, melhor seria calar-se sobre ele do que falar. Pois não vale tanto: nem fazemos tanto caso de seus erros a ponto de julgá-los dignos de nossa censura; pensamos que mais nos interessa, e que mais nos convém doer-nos, ser repreendido o trabalho bem aplicado nosso, do que os erros alheios. Assim, sendo tão grande o ódio à verdade, que nos resta senão não nos arrependermos do quanto de esforço pusemos em ajudar os estudos? Todavia este desprezo, esta detração, jamais pôde fazer com que desviássemos o ânimo do trabalho para o ócio. Considero-me o menor entre aqueles que podem ajudar os bons estudos; entre os que o querem, a ninguém cedo. Assim, quando vi nossa doutrina ser interpolada por profetas, negligenciada por imperitos, ridicularizada por bobos, dissimulada por simiozinhos, mesmo assim eu estabelecia que seria recompensa suficientemente grande dos meus trabalhos, se ao menos pudesse encontrar-se um único que lesse, entendesse e trouxesse à luz o entendido daquilo que escrevemos. Deus ótimo máximo teve compaixão tanto de nós, que estudamos para tão ingrata época, quanto daqueles que mais por ignorância que por malícia são desviados da leitura de nossos livros, e do meio das chamas da inveja, do próprio estrépito das detrações, suscitou um homem probíssimo, doutíssimo, acuratíssimo: SETHUS CALVISIUS, varão daquela antiga ingenuidade e fidelidade germânicas, virtudes cujos sinais hoje, na maior parte dos homens que tratam de letras lá, estão obsoletos. Ele, a partir de nossa doutrina, instruiu lucidíssimos preceitos cronológicos e um excelente *Chronicon*, que não apenas obscurece as luzes das cronologias anteriores, mas é também tal que, exceto por ele, nenhum outro propriamente pode ser chamado *Chronicon*. Ele, assim como foi o primeiro a farejar o sentido de nossa mente, foi também o primeiro entre os cronólogos a deixar de dizer ninharias. Nenhum anacronismo encontrarás naquele divino sacrário do tempo, nenhum delírio, nenhuma fanática *epocha* de γεωργίας (agricultura), de Jubileus, do início das coisas: nenhuma cicatriz daquelas com que a imperitíssima nação dos Cataros e dos Profetas marcou a mísera Cronologia. Reconheço, sim, os vestígios de nossa doutrina: mas quão expedita a metodologia com que ele a fez sua —
εἵματα δ' εὖ, καὶ πορφυρᾶν, λόγοισι ποικίλαις καλοῖς (vestes belas, e de púrpura, com discursos variados e formosos).
Propomos este eminente artífice à cândida juventude, como exemplar perfeitíssimo de Cronologia para ser imitado, não apenas para que se conformem com seu método, mas também com seu candor e ingenuidade. Quem carecer destas virtudes, ainda que εἰς ἄκρον παιδείας ἐληλακὼς ᾖ (tenha avançado ao ápice da erudição), em vão se aplicará a este estudo. Pois, como aos Cataros e Profetas faltam as duas coisas, candor e método, a emulação cegou-lhes os olhos para que não vissem aquelas riquezas recônditas, e a ἀμεθοδδοσία (falta de método), para que não pudessem alcançá-las. Ninguém espere alcançar método nestas matérias, a não ser que tenha manuseado livros de escritores estrangeiros de toda espécie, e do trato assíduo deles tenha conseguido para si algum uso de doutrina múltipla. Quão distantes disso estão os Cataros, que se afastam tanto de toda leitura exótica! Aquilo que nós, em tantos anos, instruídos com os auxílios de tantos escritores tanto sagrados quanto estrangeiros, mal afinal forjamos — isso, claro, homens dotados de nenhuma doutrina, de nenhum gosto literário, rústicos, agrestes, idiotae
English
PROLEGOMENA
There is no way, absolutely no way, except the one we have taught. To yield one's hands, vanquished, to demonstration is the mark of a mathematician: to oppose it is not even the mark of a man, much less of a mathematician. Therefore, no one will ever persuade himself, on the basis of this year-edition alone, that Clavius is a mathematician, unless he knows it from elsewhere; nor will he ever believe those who swear it. But whether Clavius's errors are removed or left untouched, whether his year is corrected or always exhibited deformed as it is, this is neither our concern nor our business. Our fortune is not staked on this matter. We attend to other things. But because he was so brazen as to procure, by edict, that those who openly exposed his foul errors should be called wicked, I order him to be flogged, I order him to weep among the chairs of his own disciples, that he may learn how worthy he is of that name, and how unworthy of it are those whom he took care to brand with such an appellation. He will pay penalty enough to us, to posterity, and to all those to whom the name of wicked applies least, so long as that ridiculous year-edition holds its place — which it suits us to hold only insofar as it inflicts upon him punishment for his rashness. For it is dedicated not only to the memory of the saints, but also to the errors of Clavius, so that no one even slightly skilled in these matters can cast eyes upon it without immediately encountering, on its very threshold, those august colleges of concolorous and discolorous *Epactae*. So then — wicked are those who pointed out Clavius's errors, who, from the not-good Lilian tables, published by far the worst method of *Epactae*, displaced the Nicene Termini, transferred the *neomeniae* to alien seats, as though imposing a bridle on the Moon's motion? But we have sufficiently set forth his errors in our Canons. If he is grieved that they have been received by us in too rigorous Latin, let him know that he is treated according to his merit, and that this is a response, not a curse; and that those who have been unjustly called wicked may rightly turn the term back upon those who deserve it. Hence we have spoken too much of him, drawn on by just indignation, because that muddy fellow caused us to be called wicked by public edict. Otherwise, as with other rustics, it would be better to keep silent about him than to speak. For he is not worth so much: nor do we make so much of his errors as to deem them worthy of our censure; we think it more our concern, and what we should rather grieve over, that our well-placed labor be reproved, than the errors of others. Therefore, since hatred of truth is so great, what remains for us but not to repent of however much labor we have put into helping studies? Yet this contempt, this detraction, has never been able to make us turn our mind from labor to leisure. I count myself the least among those able to aid good studies; among those willing, I yield to no one. Therefore, when I saw our doctrine interpolated by prophets, neglected by the unskilled, mocked by buffoons, dissimulated by little apes, nevertheless I held that the reward of my labors would be great enough if even one could be found to read, understand, and bring to light the understood content of our writings. God most good and great had pity both on us, who studied for so ungrateful an age, and on those who, from ignorance more than malice, are deterred from reading our books, and from the very flames of envy, from the very din of detraction, He raised up a most upright, most learned, most accurate man: SETHUS CALVISIUS, a man of that ancient German uprightness and fidelity, the marks of which virtues are now obsolete in the greater part of those who handle letters there. From our doctrine he constructed most lucid chronological precepts and an outstanding *Chronicon*, which not only eclipses the lights of earlier chronologies, but is moreover such that, apart from it, no other can truly be called a *Chronicon*. He, as he was the first to scent out the sense of our mind, so he was the first among chronologers to cease trifling. No anachronism will you find in that divine sanctuary of times, no delirium, no fanatical *epocha* of γεωργίας (agriculture), of Jubilees, of the origin of things; no welts such as those with which the most ignorant nation of Cathari and Prophets has scarred wretched Chronology. I recognize, indeed, the traces of our doctrine: but with what most expeditious method he has made it his own —
εἵματα δ' εὖ, καὶ πορφυρᾶν, λόγοισι ποικίλαις καλοῖς (fair garments, and of purple, with varied and beautiful discourses).
This distinguished artificer we propose to the candid youth as a most perfect exemplar of Chronology, to be imitated not only in his method, but also in his candor and uprightness. Whoever lacks these virtues, even if εἰς ἄκρον παιδείας ἐληλακὼς ᾖ (he have advanced to the summit of learning), in vain will he apply himself to this study. For since the Cathari and Prophets lack both, candor and method, emulation has dazzled their eyes so they cannot see those hidden riches, and ἀμεθοδδοσία (lack of method) prevents them from attaining them. Let no one hope to acquire method in these matters unless he has gone through the books of foreign writers of every kind, and from constant handling of them has gained for himself some use of manifold learning. How far from this are the Cathari, so averse to all exotic reading! What we, over so many years, equipped with the resources of so many writers, both sacred and exotic, have at last barely hammered out — this, forsooth, men endowed with no learning, no taste for letters, rustics, country-folk, idiotae
Latim
PROLEGOMENA
Nulla est, nulla prorsus via, nisi quam docuimus. Demonstrationi victas manus dare, Mathematici est: aduersari, ne hominis quidem est, nedum mathematici. Itaque ex hac anni editione Clauium Mathematicum esse, nisi aliunde sciat, nemo unquam sibi persuadebit, nunquam iurantibus credet. Sed errores Clauij tolli, aut intactos relinqui: annum eius castigari, aut ita semper deformatum exponi, id vero neque nostra interest, neque ad nos pertinet. In hoc enim fortunae nostrae sitae non sunt. Aliud curamus. Quia vero adeo confidens fuit, ut eos, qui eius foedos errores in apertum exposuerunt, edicto improbos vocari procurarit, ego eum vapulare, ego eum inter cathedras discipulorum suorum plorare iubeo, ut discat tam dignum se esse eo nomine, quam eos indignos, quos ille tali appellatione affici curauit. Satis satis poenarum dabit & nobis, & posteritati, & omnibus, in quos nihil minus competit, quam improborum nomen, quandiu ridicula illa anni editio locum obtinebit, quam obtinere eatenus nobis expedit, ut ex illa nobis supplicium det temeritatis suae. Non enim in ea sola Sanctorum memoria, sed etiam Clauij errorum dedicata est, ut nemo paulo harum rerum peritior in eam oculos conijciat, quin illi in ipso limine augusta illa collegia Epactarum concolorium, & discolorium occurrant. Itane improbos, qui errores Clauij indicarunt, qui ex Lilianis non bonis longe pessimam Epactarum methodum publicauit, Terminos Nicenos loco mouit, neomenias in alienas sedes traduxit, tanquam frenum motui Lunae imponat? Sed eius errores in Canonibus satis exposuimus. Quos si dolebit nimis Latine a nobis exceptos esse, sciat pro merito suo se a nobis accipi, & responsum, non maledictum esse, & qui indigne improbi vocati sunt, posse illud merito ad eos, qui digni ea appellatione sunt, retorquere. Quare nimium de illo diximus, ad quae nos iusta indignatio prouexit, quia homo lutteus, ut improbi edicto publico vocaremur, effecit. Aliter enim, ut de alijs rupicibus, de eo melius esset silere, quam loqui. Neque enim tanti est: neque eius errores tanti facimus, ut eos animaduersione nostra dignos iudicemus; qui nostra magis interesse putamus, & quibus magis dolere conuenit bene locatam operam nostram, quam aliena errata, reprehendi. Itaque quum tantum odium sit veri, quid superest nobis, quam quantum operae in iuuandis studijs posuimus, eius non poenitere? Tamen hic contemptus, haec obtrectatio nunquam facere potuit, ut animum a labore ad otium traduceremus. Minimum eorum, qui bona studia iuuare possint, me reputo, eorum, qui velint, nemini cedo. Itaque quum viderem doctrinam nostram a prophetis interpolari, ab imperitis negligi, a scurris derideri, à simiolis dissimulari, tamen laborum meorum praemium satis id magnum fore constituebam, si vel unus tantum reperiri posset, qui nostra legeret, intelligeret, intellecta in lucem proferret. Deum opt. max. misertum est tam nostri, qui tam ingrato saeculo studuimus, quam illorum, qui inscitia potius, quam malitia a nostrorum librorum lectione deterrentur, & hominem e medijs inuidiae flammis, ex ipso obtrectationum strepitu excitauit, probissimum, doctissimum, accuratissimum, SETHVM CALVISIVM, virum priscae illius Germanorum ingenuitatis, & fidei, quarum virtutum notae hodie in maiori parte hominum, qui isthic literas tractant, obsoleuerunt. Is ex doctrina nostra luculentissimas praeceptiones Chronologicas, & eximium Chronicon instruxit. quod non solum superiorum Chronologiarum luminibus obstruit, sed & quod eiusmodi est, ut, praeter illud, nullum vere Chronicon dici possit. Ille ut primus animi nostri sensum odoratus est, ita primus inter Chronologos nugari desijt. Nullum anachronismum in illo diuino temporum sacrario reperias, nullum delirium, nullam fanaticam epochen γεωργίας, Iobeleorum, initij rerum: nullos vibices, quos imperitissima Catharorum, & Prophetarum natio miserae Chronologiae inussit. Agnosco quidem vestigia doctrinae nostrae: sed quam ipse expeditissima methodo suam fecit
εἵματα δ' εὖ, καὶ πορφυρᾶν, λόγοισι ποικίλαις καλοῖς.
Hunc eximium artificem candidae iuuentuti, tanquam exemplar Chronologiae perfectissimum, imitandum proponimus, non solum ut ad eius methodum, sed etiam ad candorem, & ingenuitatem sese componant. Qui his virtutibus caruerit, etiam si εἰς ἄκρον παιδείας ἐληλακὼς ᾖ, frustra ad hoc studium sese conferat. Quia enim Catharis & Prophetis utrunque deest, candor & methodus, aemulatio oculos eorum perstrinxit, ne opes illas reconditas videant, ἀμεθοδδοσία, ne eas consequi possint. Methodum autem in his rebus nemo speret se adipisci, nisi omnium exoticorum omnis generis scriptorum libros versauerit, & ex illorum assiduo tractatu aliquem usum multiplicis doctrinae sibi comparauerit. a quo quantum absunt Cathari, qui ab omni exotica lectione adeo auersi sunt? Quod nos tot annis, tot scriptorum tam sacrorum, quam exoticorum praesidijs instructi vix tandem extudimus, id homines scilicet nulla doctrina, nullo gustu literarum praediti, rustici, agrestes, idiotae
Referencias cruzadas
- A frase 'homo lutteus' (página, parece transcrição com 'tt' duplicado): provavelmente 'luteus' (de barro/lodoso, i.e. vil, baixo) — mantida como 'lutteus' na transcrição mas traduzida como 'lutoso/muddy fellow'.
- Citação grega 'εἵματα δ' εὖ, καὶ πορφυρᾶν, λόγοισι ποικίλαις καλοῖς': leitura provisória; possível alusão poética não identificada com certeza (estilo pindárico?).
- O termo 'γεωργίας' aparece como exemplo de 'epocha fanática' — aparente referência polêmica a sistemas cronológicos baseados em era da agricultura (talvez de cronólogos protestantes ou apocalípticos).
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