Isagogicorum chronologiae canonum · Joseph Scaliger (1606)
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Portugues

PROLEGÔMENOS.
quando dois ou três meses do ano em curso são usados pela Escritura como ano inteiro. Portanto, teria antes chamado aqueles três meses de primeiro ano de Sedequias do que de início do reinado de Sedequias. Por fim, o argumento mais firme de todos é que, se na história de Jeconias a conversão do ano fosse entendida a partir do cardo vernal, sem dúvida teria sido aposta a nota *quando os reis se preparam para sair à guerra*, como foi feito na história de Davi; e de fato aqui tinha lugar oportuno, pois então foi feita por Nabucodonosor a expedição contra Jeconias. Concluamos, pois, que os κέντρα dos antigos hebreus, que sem qualquer controvérsia foram os mesmos dos caldeus, persas e gregos, não eram chamados, como hoje, תקופות, mas sim תשובות השנה. Se isto não for aprovado pelos profetas, é razão para nos alegrarmos ainda mais. Pois nada é mais oportuno à sua maledicência do que aquilo que está acima de sua capacidade. Assim, surgida esta nobre questão durante a redação, não tive receio de granjear, com ela, gratidão dos engenhos cândidos e ódio e inveja dos Cercopitecos, sobretudo quando esse Simiolo persegue tão petulantemente aqueles κέντρα. Estas são pouquíssimas dentre muitas coisas que recolhi esparsamente do feto abortivo daquele profeta. Pois nunca pude obrigar-me a ler todo o livro, embora em sua leitura eu tenha sido afetado de modos vários — ora com prazer, quando nele ocorriam coisas tão jocosas e mímicas, ora com admiração e náusea, quando via tanta confiança do homem unida a tanto desprezo e emulação da indústria alheia. Assim, ainda que aquela ἀδιατρεψία [indiferença] me tenha podido afastar da leitura, todavia a recordação ao menos do prazer passado deveria me chamar de volta a ela: o que antes deixamos a outros, os quais, se não podem esperar nenhum fruto de obra tão monstruosa, terão ainda assim de que rir e com que recrear o ânimo de cuidados mais graves. E não há razão para que eu não lhe agradeça, pois, depois de ter-se medido com Aristóteles, vencido este, escolheu-me como segundo. O que certamente não teria feito, se, derrotado adversário tão grande, não me julgasse também digno de cair pela sua destra. Ouço, com efeito, que ele escreveu certas coisas contra o Filósofo, e refutou os escritos de Aristóteles com a mesma felicidade com que refutou os nossos. Certamente os que leram atestam que leram aquilo contra o Filósofo com o mesmo prazer e a mesma náusea com que nós lemos este último feto. Eu na verdade não consideraria caro pagar a peso de ouro para ver tal homem; se é que sou digno de tanta honra. Pois quem é dotado de tal engenho, cujo semelhante creio que hoje em parte alguma exista, é necessário que seu rosto difira muito da figura dos demais mortais. E se nem sequer tem pais semelhantes, do tipo que têm os outros homens, como aquele Merlino, que se diz nascido de demônio? Certamente também este, como Merlino, é profeta, e compatriota de Merlino, e tem muitas coisas comuns com Merlino. Por isso não receio dizer que ou é o εἴδωλον [imagem fantasmal] de Merlino, ou o próprio Merlino. Eis, cândidos leitores, com quem nos havemos, quer sejam homens, quer devam ser chamados por outro nome — pois como os chamarei, não sei. Depois de havermos exaurido muitos labores, atravessado um vasto pélago de escritores de todo gênero, consultado toda a memória da antiguidade, para trazer alguma luz aos estudos das letras e alguma utilidade aos estudiosos, surgem escaravelhos, simiolos, καθαροί [puros], profetas, abortivos rabiscadores de papéis, os quais, daquilo que nunca leram, cujo cheiro nunca lhes chegou às narinas, em três horas, ao primeiro lance de olhos, julgam não só haver alcançado, mas até se professam autores. Com que confiança esse aí discorre sobre a *Octaeteris* de Hárpalo e sobre o lugar de Avieno Festo, sobre a *Enneadecaeteris* de Méton! Dirias que estas coisas não foram primeiro por nós tiradas das trevas, mas que ele mesmo é seu pai. Quem expôs antes de nós o catálogo dos equinócios de Hipparco? E todavia, porque ele é profeta, isto não aprendeu de nós, mas adivinhou. Sobre as observações equinociais de Tycho Brahe, se eu não tivesse sido o primeiro a anunciá-las, se não as tivesse recomendado com magnífico testemunho, como devia, quem — não digo profeta, mas dentre muitos dos que se dizem matemáticos — teria notado isto? E todavia ele parece ter sido o primeiro a farejá-lo. Com que audácia disserta sobre as sizígias, sobre o modo do ano lunar! Traz à baila os escritos de Ptolomeu e de Albateno! Dirias que não tratou de nada além de astrologia. Enfim, em toda parte reconhecerias o macaco, mas daquele gênero que, depois de divertir longamente seus heróis com gestos e movimentos ridículos, depois, manuseado pelas mãos com calor desordenado, morde-as. Quanto à opinião que ele tem sobre nossa indústria e nossos escritos, deixou-o suficientemente atestado em todo o livro de sua profecia. E o que pensa sobre nossa fidedignidade, pode-se julgar pelo seguinte. Pois nega o que dissemos, a saber, que pelos samaritanos habitantes do monte Garizim é enviado anualmente aos samaritanos egípcios o tipo do ano. Depois de proferir tão excelente sentença sobre nossa fidedignidade, acrescenta lúcido testemunho de sua erudição. Não receia jurar que o tipo que os samaritanos egípcios me enviaram pertence ao ano de Cristo 1576, e não, como nós teríamos mentido, ao ano de 1584. Certamente a *neomenia* daquele ano, que chamam mês Dulhaia, é posta na feria segunda, seguida na terça pelo sexto Adar Solar do Hiparco samaritano: de modo que o Adar Solar deles começa hoje em IV das calendas de março:

English

PROLEGOMENA.
when two or three months of the running year are used by Scripture for the whole year. Therefore he would rather have called those three months the first year of Zedekiah than the beginning of Zedekiah's reign. Finally, the firmest argument of all is this: if in the history of Jechoniah the turning of the year were understood from the vernal cardo, the note *when kings prepare to set out to war* would undoubtedly have been added, as was done in the history of David; and indeed it would have had a fitting place here, since at that time Nebuchadnezzar's expedition against Jechoniah took place. Let us therefore conclude that the κέντρα of the ancient Hebrews, which without any controversy were the same as those of the Chaldeans, Persians, and Greeks, were not called, as today, תקופות, but rather תשובות השנה. If this is not approved by the prophets, that is all the more reason for us to rejoice. For nothing is more useful against their detraction than what is above their grasp. Therefore, since this noble question arose while writing, I was not afraid to earn by it the gratitude of candid minds and the hatred and envy of the Cercopitheci, especially since this Simiolus so impudently attacks those κέντρα. These are very few of many things that I have plucked here and there from that prophet's abortive foetus. For I could never bring myself to read the whole book, though in reading it I was variously affected — sometimes with pleasure, when such jocular and mimic things occurred, sometimes with astonishment and disgust, when I saw such confidence in the man combined with such contempt and emulation of others' industry. Therefore, although that ἀδιατρεψία [indifference] could turn me away from the reading, yet at least the recollection of past amusement ought to have called me back to it: which we rather leave to others, who, if they can hope for no fruit from so monstrous a work, will nevertheless have something to laugh at and to refresh their minds from graver cares. Nor is there any reason why I should not thank him, that, after he had set himself on a par with Aristotle and conquered him, he chose me as the next. Which he certainly would not have done, unless, having dispatched so great an adversary, he had judged me also worthy to fall by his right hand. For I hear that he wrote certain things against the Philosopher, and refuted Aristotle's writings with the same felicity as ours. Certainly those who have read them attest that they read those things against the Philosopher with the same pleasure and disgust with which we read this latest foetus. Indeed I would not count it dear at the price of gold to see the man; if I am worthy of such honor. For one endowed with such a genius, the like of which I think exists nowhere today, must necessarily have a face very different from the figure of other mortals. What if he does not even have parents like those of other men, such as that Merlin, who is said to have been begotten by a demon? Surely this one too, like Merlin, is a prophet, and a fellow-countryman of Merlin, and has much in common with Merlin. Therefore I do not fear to say that he is either the εἴδωλον of Merlin, or Merlin himself. Behold, candid readers, with whom we have to do, whether men, or to be called by some other name — for how I should call them, I know not. After we have endured many labors, traversed a great sea of writers of every kind, consulted every memory of antiquity, to bring some light to literary studies and some utility to scholars, there appear beetles, little apes, καθαροί, prophets, abortive scribblers of paper, who, of things they have never read, of which not even the smell has reached their nostrils, in three hours, at first glance, not only think they have mastered them, but even profess themselves their authors. With what confidence does this fellow argue about Harpalus's *Octaeteris* and the passage of Avienus Festus, about Meton's *Enneadecaeteris*! You would say these things were not first dug out of darkness by us, but that he himself is their parent. Who set forth Hipparchus's catalogue of equinoxes before us? And yet, because he is a prophet, he did not learn this from us, but foresaw it. As for Tycho Brahe's equinoctial observations, had I not been the first to make them known, had I not commended them with magnificent testimony, as I ought, who — I do not say among prophets, but among the many who pass for mathematicians — would have noticed this? Yet he seems to have been the first to scent it out. With what boldness he discourses on syzygies, on the manner of the lunar year! He brings forth the writings of Ptolemy and Albategnius! You would say he treated of nothing but astrology. In short, everywhere you would recognize the ape, but of that sort which, after long delighting its masters with ridiculous gestures and motions, afterwards, when handled by the hands with disorderly heat, bites them. What opinion he has of our industry and writings, he has sufficiently attested throughout the whole book of his prophecy. What he thinks of our trustworthiness, can be judged from the following. For he denies what we said, that the type of the year is sent yearly by the Samaritans dwelling on Mount Garizin to the Samaritans of Egypt. After delivering so excellent a verdict on our trustworthiness, he adds a brilliant testimony of his erudition. He does not fear to swear that the type which the Egyptian Samaritans sent me pertains to the year of Christ 1576, not, as we are alleged to have lied, to 1584. Certainly the *neomenia* of that year, whose month they call Dulhaia, is placed on the second feria, with the sixth Adar Solaris of the Samaritan Hipparchus following on the third: so that their Adar Solaris today begins on IV Kal. Martias:

Latim

PROLEGOMENA.
quum duo, aut tres menses de anno labente pro toto anno a Scriptura usurpentur. Itaque illos tres menses potius primum annum Sedekiae vocasset, quam initium regni Sedekiae. Denique omnium firmissimum argumentum, quod, si in historia Iechoniae conversio anni de verno cardine intelligeretur, sine dubio apposita fuisset nota, quando reges ad bellum profectionem parant, ut in historia Davidis factum est; & sane hic opportune locum habebat, quia tunc a Nabuchodonosoro expeditio in Iechoniam facta est. Concludamus igitur, κέντρα veterum Hebraeorum, quae sine ulla controversia fuerunt eadem, quae Chaldaeorum, Persarum, & Graecorum, non tam תקופות ut hodie, quam תשובות השנה dicta fuisse. Haec si prophetis non probantur, est quod impendio magis gaudeamus. Nihil enim eorum obtrectationi opportunius est, quam quod supra eorum captum est. Itaque quum haec nobilis quaestio inter scribendum nata sit, non veritus sum ea a candidis ingeniis gratiam, a Cercopithecis odium & invidiam promereri, praesertim quum iste Simiolus tam proterve illa κέντρα insectetur. Haec sunt paucissima de multis, quae sparsim ex illius prophetae abortivo foetu decerpsi. Nam totum librum ut perlegerem, nunquam mihi imperare potui, quanvis in eius lectione varie affectus fui, nunc voluptate, quum tam iocularia & mimica in eo occurrerent, modo admiratione & stomacho, quum tantam hominis confidentiam cum tanto alienae industriae contemptu & aemulatione coniunctam viderem. Itaque tametsi me ἀδιατρεψία illa a lectione avertere potuit, tamen praeteritae saltem oblectationis recordatio ad eam me revocare debuit: quod potius aliis relinquimus, qui si nullum fructum ex tam portentoso opere sperare possunt, erit nihilominus, quod ridere possint, & animum a gravioribus curis reficere. Neque vero caussae est, cur non illi gratias agam, quod postquam sese parem cum Aristotele composuit, eo victo, me secutorem delegerit. Quod certe non fecisset, nisi tanto adversario confecto, me quoque dignum censuisset, qui dextra eius caderem. Audio enim eum quaedam adversus Philosophum scripsisse, eademque felicitate Aristotelis scripta confutasse, qua nostra. Certe qui legerunt, eadem voluptate, eodemque stomacho, quo nos hunc postremum foetum legimus, illa adversus Philosophum se legisse testantur. Sane auro contra carum non haberem, hominem videre; si quidem tanto honore dignus sim. Nam qui tali ingenio praeditus sit, cuius simile nullum hodie uspiam extare puto, eius vultum a caeterorum mortalium figura multum discrepare necesse est. Quid si ne similes quidem parentes, cuiusmodi caeteri homines, habet, ut ille Merlinus, qui ex daemone satus dicitur? Certe & iste quoque, ut Merlinus, propheta est, & Merlini popularis, & multa cum Merlino communia habet. Ideo non vereor dicere, vel Merlini εἴδωλον esse, vel Merlinum ipsum. En, candidi lectores, quibuscum nobis res est, sive homines, sive alio nomine vocandi sunt. quomodo enim appellem, nescio. Postquam multos labores exantlavimus, magnum pelagus omnis generis scriptorum transmisimus, omnem antiquitatis memoriam consuluimus, ut literarum studiis aliquam lucem, studiosis aliquid utilitatis adferamus, existunt scarabaei, simioli, καθαροί, prophetae, abortivi chartarum conscribellatores, qui quae nunquam legerunt, quorum ne odor quidem eorum naribus acciderat, trihorio, primo statim oculorum coniectu, non solum se ea assequi putant, sed etiam se eorum auctores profitentur. Quam confidenter iste de Harpali Octaeteride, & loco Avieni Festi, de Metonis enneadecaeteride argutatur? Diceres non primum a nobis e tenebris eruta, sed eorum ipsum parentem esse. Quis aequinoctiorum Hipparchi elenchum exposuit ante nos? Et tamen, quia iste est propheta, hoc a nobis non didicit, sed praevidit. De Tychonis Brahe aequinoctialib. observationibus nisi ego primus monuissem, nisi eas magnifico, uti debui, testimonio commendassem, quis, non dicam propheta, sed multi ex iis, qui Mathematici audiunt, hoc animadvertisset? Tamen iste videtur primus hoc odoratus fuisse. Quam audacter de syzygiis, de modo anni Lunaris disserit? Ptolemaei, Albatenii scripta in medium producit? Diceres nihil, praeter astrologiam, tractasse. Denique ubique simium agnoscas, sed ex eorum genere, qui, quum gestibus, ac motibus ridiculis heros suos diu oblectarunt, postea desultorio calore eorum manibus tractati mordent. Quae de industria nostra, & scriptis sententia eius sit, satis toto prophetiae suae libro testatum reliquit. De fide autem quid sentiat, ex istis iudicari potest. Verum negat, quod diximus, a Samaritis Garizin montis incolis typum anni ad Samaritas Aegyptienses quotannis mitti. Postquam de fide nostra tam praeclaram sententiam tulit, luculentum eruditionis suae testimonium adijcit. No veretur deierare, eum typum, quem Samaritae Aegyptienses mihi miserunt, ad annum Christi 1576 pertinere, non, ut nos mentiti sumus, ad annum 1584. Certe neomenia eius anni, qué mensem Dulhaia vocant, ponitur feria secunda, sequente tertia, Adar Solaris Samaritani Hipparchei sexta: ita ut eorum Adar Solaris hodie ineat ex a. d. IIII Kal. Martias:
** iij cui

Eventos astronomicos detectados

other: Neomenia do mês samaritano Dulhaia, posta na feria secunda; Adar Solaris samaritano hiparquiano começa em IV Kal. Martias data: anno Christi 1576 (vs. 1584) fonte: typus anni samaritano enviado pelos samaritanos do monte Garizim aos samaritanos egípcios
equinox: Catálogo (elenchus) dos equinócios de Hiparco, mencionado como exposto pela primeira vez por Scaliger data: — fonte: Hipparchus
equinox: Observações equinociais de Tycho Brahe, comentadas e elogiadas por Scaliger data: — fonte: Tycho Brahe
Flags de incerteza (pontos para revisao humana)
Notas do tradutor: Esta página NÃO é texto técnico do Isagogicorum propriamente dito, mas parte dos PROLEGOMENA polêmicos da edição de 1606 (página marcada **iij no fim, indicando caderno preliminar). Scaliger aqui ataca um adversário inominado que escreveu uma 'profecia' contra ele e contra Aristóteles — é a polêmica característica de Scaliger contra um detractor (provavelmente um jesuíta, dada a era; o tom 'Merlinus' e 'propheta' sugere paródia). O conteúdo cronológico real é mínimo: (1) defesa da identidade dos κέντρα antigos hebraicos, caldeus, persas e gregos como תשובות השנה (não תקופות); (2) reivindicação de prioridade na exposição do catálogo equinocial de Hiparco e na divulgação das observações de Tycho Brahe; (3) defesa da datação do typus anni samaritano (1584 vs. 1576 alegado pelo adversário). Não há definições técnicas formais nem tabelas. Os termos técnicos relevantes mencionados de passagem incluem: Octaeteris (Harpalus), Enneadecaeteris (Meton), syzygiae, annus lunaris, neomenia — todos preservados em latim itálico no texto traduzido.

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