Portugues
PROLEGÔMENOS.
o próprio Nabonassar morreu. Certamente, estabelecer a forma do ano para um povo é prerrogativa de quem governa esse povo, não de um rei estrangeiro. Pois prescrever uma forma qualquer de ano, que outra coisa é senão governar, dar lei? Acaso Nabonassar exerceu domínio sobre Bocchoris? Acreditarei que Nabonassar prescreveu a forma do ano a Bocchoris quando o ínclito IACOBVS, grande rei da Britânia, for forçado pelo Turco a aceitar o ano da Hégira. Vede, leitores cândidos, que os Profetas são dotados não menos de admirável perícia histórica que de juízo. Podereis julgar isso ainda mais pelo que se segue, quando ele afirma que aquele Belésis, mencionado em Diodoro, é o mesmo que Nabonassar. Isso é repetido tão frequentemente quanto que Nabonassar foi um sumo astrólogo. Pois, como Belésis era sacerdote e, como a maior parte dos Caldeus, astrólogo, e como ele já se persuadira de que Nabonassar fora astrólogo, por isso julgou que Nabonassar e Belésis eram a mesma pessoa. Certamente, se Nabonassar é um e o mesmo por essa razão — porque ambos eram astrólogos —, segue-se que, havendo naquele tempo tantos milhares de astrólogos na Caldeia, todos eles eram um único Nabonassar. O que é certamente digno de agudeza profética. Mas Belésis, 176 anos antes do primeiro Thoth de Nabonassar, foi quem instigou Arbaces o Medo a invadir o império contra Sardanapalo. Sem dúvida, um homem de tanta prudência e tanta experiência, tal como é descrito por Diodoro, e tal como devia ser quem aconselhou Arbaces em empreitada tão árdua, e a quem Arbaces consultava como oráculo de Belo — tal homem deveria ter, no mínimo, trinta anos naquele tempo. Portanto, no primeiro Thoth de Nabonassar, Belésis teria 156 anos: e, sendo o mesmo que Nabonassar, Nabonassar teria invadido o império com a mesma idade. Como julgaremos que ele era, sendo de juventude ardente, quem aos 156 anos de idade não temeu tomar o império contra inimigo poderosíssimo? Para que não nos admiremos de que Nabonassar foi astrólogo, acrescentarei mais: que dele o rei Acaz de Judá aprendeu o método de fabricar relógios. Por isso (palavras do profeta da pág. 81) — segundo a doutrina de Nabonassar, sendo grande sua fama em todo o reino Assírio, como colhemos de Diodoro Sículo, parece que Acaz, rei de Judá, construiu aquele *Solarium* dividido em semi-horas, do qual se faz menção na história da enfermidade de Ezequias. Eis Acaz como discípulo de Nabonassar, astrólogo e fabricante de relógios. Assim como não lhe censuro os delírios que tem em comum com outros — como remeter a *Epocha* do mundo a 54 anos antes do que admite o cômputo Mosaico (pois também outros padecem dessa mesma doença) —, também não lhe imputo como vício que chame os graus do palácio de Acaz de "relógio". Pois isso o persuadiram à posteridade tanto os antigos Judeus, e Jerônimo, que os seguiu, quanto os Judeus mais recentes. Mas de onde tira, ou de onde deduz, que aquele *Holorogium* era dividido em semi-horas, eu de bom grado aprenderia dele. Mas como todo aquele livro *διοπτής* (espião) nasceu de emulação e da insônia que lhe causou nossa obra, que lhe tira o sono, e nada mais nele se empenha ou comenta senão persuadir aos tolos que tudo o que é nosso é fictício, e que o seu desceu do céu, tocarei em duas ou três coisas das muitas que nos dizem respeito. O resto deixaremos como brinquedo dos ventos rápidos. Em uma passagem de Q. Cúrcio sobre o ano dos Indianos, ele mostra que não sabemos latim. Palavras de Q. Cúrcio: "Os meses descreveram em quinze dias. Conservam-se os espaços plenos do ano. Marcam os tempos pelo curso da Lua, não, como muitos, quando o astro encheu o orbe, mas quando começou a curvar-se em forma de cornos: e por isso têm meses mais breves, pois ajustam seu espaço a este movimento da Lua." Qual seja o sentido destas palavras, é evidente a quem entende latim mediocremente. O décimo quinto da Lua é o *plenilunium*. Em quinze dias, diz, os Indianos descrevem seus meses, não certamente a partir do *plenilunium*, embora o décimo quinto dia da Lua seja o *plenilunium*. Pois, se em quinze dias seus meses são descritos, alguém poderia razoavelmente suspeitar ou que começavam do *plenilunium* ou da conjunção. Que esta é a mente de Cúrcio, ninguém que saiba latim negará. Mas a censura profética nega que tenhamos entendido, porque interpretamos *orbem impletum* como *plenilunium*. Ele afirma que isso significa o círculo inteiro da Lua, isto é, quando a Lua percorreu todo o círculo do Zodíaco. Quem jamais, sabendo latim ainda que medianamente, quando se trata da Lua, interpreta *orbem plenum* ou *orbem impletum* como outra coisa que não o corpo da própria Lua? É preciso ser singularmente ignorante da latinidade para sentir de outro modo. O capítulo IX do livro II de Plínio é todo sobre a Lua e suas configurações. Ali *orbe pleno, orbe dimidio* — que outra coisa designa senão *πανσέληνον* (lua cheia) e *διχότομον* (meia)? Quem é tão obtuso, tão alheio ao uso do latim, que ouse pronunciar-se de outro modo? À letra, Basílio no sermão VI do *Hexaemeron*: ὅταν ἐκπληρώσῃ τὴν ἑαυτῆς ἀσπίδα — "Quando tiver enchido seu próprio orbe." Fala da Lua cheia. Em Sêneca no *Hipólito*:
"Quão mais brilhante refulge com o orbe pleno,
Quando juntou seus fogos com o corno coalescente."
— E *orbem* e *complere* dizem os bons escritores quando falam do circuito dos planetas: mas com discernimento — *Orbem conficere*, *circuitum peragere*. Cícero: "O Sol completa seus cursos anuais."
English
PROLEGOMENA.
Nabonassar himself died. Certainly, to fix the form of the year for some people is the prerogative of the one who rules that people, not of a foreign king. For to prescribe some form of the year — what else is it but to rule, to give law? When did Nabonassar ever rule over Bocchoris? I shall believe that Nabonassar prescribed the form of the year to Bocchoris when the illustrious IACOBVS, great king of Britain, is forced by the Turk to accept the year of the Hijra. You see, candid readers, that the Prophets are endowed no less with marvelous historical learning than with judgment. You may judge this all the more by what follows, when he says that the Belesis mentioned in Diodorus is the same as Nabonassar. This is repeated as frequently as the claim that Nabonassar was a supreme astrologer. For since Belesis was a priest and, like most Chaldeans, an astrologer, and since he had already persuaded himself that Nabonassar was an astrologer, he therefore judged Nabonassar and Belesis to be one and the same. Indeed, if Nabonassar and Belesis are one and the same simply because both were astrologers, it follows that, since at that time there were so many thousands of astrologers in Chaldea, they were all one single Nabonassar — which is surely worthy of prophetic acumen. But Belesis, 176 years before the first Thoth of Nabonassar, was the one who instigated Arbaces the Mede to invade the empire against Sardanapalus. Surely a man of such prudence and such experience, as Diodorus describes him, and as he had to be who gave Arbaces counsel in so arduous an undertaking, and whom Arbaces consulted as the oracle of Bel — such a man must have been at least thirty years old at that time. Hence, at the first Thoth of Nabonassar, Belesis would have been 156 years old; and since he is the same as Nabonassar, Nabonassar would have seized the empire at the same age. What shall we think of him, in the heat of youth, who at the age of 156 did not fear to seize the empire against a most powerful enemy? And lest we marvel that Nabonassar was an astrologer, I shall add more: that from him King Ahaz of Judah learned the method of constructing clocks. Therefore (the prophet's words from p. 81) — "according to Nabonassar's doctrine, since his fame was great throughout the Assyrian kingdom, as we gather from Diodorus Siculus, it appears that Ahaz, king of Judah, constructed that *Solarium* divided into half-hours, mentioned in the account of Hezekiah's illness." Behold Ahaz as Nabonassar's pupil, astrologer, and clockmaker! Just as I do not reproach him for the deliria he shares with others — such as setting the *Epocha* of the world 54 years earlier than the Mosaic reckoning permits (for others suffer this same disease) — neither do I count it a fault that he calls the steps of Ahaz's palace a "clock." For both the ancient Jews, and Jerome following them, and the more recent Jews persuaded posterity of this. But whence he gets, or from what he deduces, that the *Holorogium* was divided into half-hours, I would gladly learn from him. But since that whole *διοπτής* (spy) book of his was born from emulation and from the insomnia that our work, which deprives him of sleep, has caused him, and since he labors at nothing else than persuading fools that all our work is fabricated, while his came down from heaven — I shall touch on two or three of the many points that concern us. The rest we shall leave as playthings to the swift winds. In a passage of Q. Curtius on the year of the Indians, he shows that we do not know Latin. Q. Curtius's words: "They reckoned the months in fifteen days. The full spaces of the year are preserved. They mark times by the Moon's course, not, as most do, when the orb has been filled by the heavenly body, but when it has begun to curve into horns: and therefore they have shorter months, since they fit their span to this movement of the Moon." What the meaning of these words is, is plain to anyone with even moderate Latin. The fifteenth day of the Moon is the *plenilunium*. In fifteen days, he says, the Indians describe their months, not necessarily from the *plenilunium*, although the fifteenth day of the Moon is the *plenilunium*. For if their months are reckoned in fifteen days, one might justly suspect that they begin either from the *plenilunium* or from the conjunction. That this is Curtius's meaning, no one who knows Latin will deny. But the prophetic censor denies that we have understood, because we interpret *orbem impletum* as *plenilunium*. He claims it means the entire circle of the Moon, that is, when the Moon has traversed the whole circle of the Zodiac. Who, with even moderate Latin, when speaking of the Moon, interprets *orbem plenum* or *orbem impletum* as anything other than the body of the Moon itself? One must be remarkably ignorant of Latinity to think otherwise. Chapter IX of Pliny's Book II is entirely about the Moon and its configurations. There *orbe pleno*, *orbe dimidio* — what else does it designate but *πανσέληνον* (full moon) and *διχότομον* (half moon)? Who is so obtuse, so unfamiliar with Latin usage, as to pronounce otherwise? Literally, Basil in the VI sermon of his *Hexaemeron*: ὅταν ἐκπληρώσῃ τὴν ἑαυτῆς ἀσπίδα — "When she has filled up her own disk." He speaks of the full Moon. In Seneca's *Hippolytus*:
"How much brighter she gleams with full orb,
When she has joined her fires with the meeting horn."
— And good writers say *orbem* and *complere* when speaking of the circuit of planets: but with discrimination — *Orbem conficere*, *circuitum peragere*. Cicero: "The Sun completes his annual courses."
Latim
PROLEGOMENA.
ipse Nabonassarus obijt. Certe anni formam genti alicui sancire, est eius, qui genti imperat, non regis extrarij. Nam aliquam anni formam indicere, quid aliud est, quam imperare, quam legem dare? Ecquando Nabonassarus Bocchoridi imperauit? Tunc credam Nabonassarum anni formam Bocchoridi indixisse, quum a Turca inclytus IACOBVS magnae Britanniae rex annum Hegirae accipere cogetur. Videtis, candidi lectores, Prophetas non minus mirifica historiae peritia, quam iudicio, praeditos esse. Hoc magis ex eo, quod sequitur, arbitrari poteritis, quum ait Belesin illum, cuius mentio apud Diodorum, eundem esse cum Nabonassaro. Hoc tam frequenter iteratur, quam Nabonassarum summum astrologum fuisse. Quia enim Belesis sacerdos erat, &, ut maxima pars Chaldaeorum, astrologus, Nabonassarum vero astrologum fuisse iam sibi persuaserat, ideo Nabonassarum, & Belesin eundem esse iudicauit. Profecto si Nabonassarus ideo unus idemque sunt, quia ambo astrologi, sequitur, quum eo tempore tot millia astrologorum in Chaldaea fuerint, eos omnes unum Nabonassarum fuisse. quae certe digna sunt acumine prophetico. Sed Belesis annis CLXXVI ante primum Thoth Nabonassari Arbaci Medo auctor fuit imperium aduersus Sardanapalum inuadendi. Sane hominem tanta prudentia, tanto rerum usu, ut a Diodoro describitur, qualem esse oportebat, qui ad tam arduum inceptum Arbaci consilium dederit, & quem, tanquam oraculum Beli, Arbaces consulebat, necesse est eo tempore triginta ut minimum annorum fuisse. Proinde primo Thoth Nabonassari Belesis fuerit CLVI annorum: & quia idem est cum Nabonassaro, totidem annorum natus Nabonassarus imperium inuaserit. Qualem eum putemus, quum esset calidus iuuenta, qui anno aetatis suae CLVI non veritus est imperium aduersus potentissimum hostem arripere? Ne vero miremur Nabonassarum astrologum fuisse, plus adijciam, ab eo Achaz regem Iuda horologiorum conficiendorum rationem didisse. Quocirca (verba prophetae ex 81 pag.) secundum Nabonassari doctrinam, quum magna eius fama esset in toto regne Assyriaco, ut ex Diodoro Siculo colligimus, videtur Achaz rex Iuda construxisse Solarium illud in semihoras distinctum, de quo fit mentio in historia aegrotationis Ezekiae. En Achaz discipulum Nabonassari, astrologum, & horologiorum artificem. Quemadmodum non obijcio illi deliria, quae cum alijs communia habet, ut Epocham mundi LIIII annis antiquiorem repetere, quam rationes Mosaicae patiuntur, (hunc enim morbum & alij quoque aegrotant) ita non illi vitio verto, quod gradus Palatij Achaz horologium vocat. Hoc enim posteris tam veteres Iudaei, & eos sequutus Hieronymus, quam Iudaei recentiores, persuaserunt. Sed quod illud Holorogium in semihoras distinctum ait, unde habeat, aut unde colligat, libenter ab eo didicerim. Sed quia totus ille διοπτής liber ex aemulatione, & insomnia, quam illi peperit opus nostrum quod ei somnos adimit, natus est, & nihil aliud in eo molitur, aut commentatur, quam ut nostra omnia commentitia, sua de caelo demissa fatuis persuadeat, duo aut tria de multis, quae ad nos pertinent, tangam. reliqua sinemus rapidis ludibria ventis. In loco Q. Curtij de anno Indorum ostendit nos Latine nescire. Verba Q. Curtij: Menses in quinos denos descripserunt dies. Anni plena spatia seruantur. Lunae cursu notant tempora, non, ut plerique, quum orbem sidus impleuit, sed quum se curuare caepit in cornua: & iccirco breuiores habent menses, qui spatium eorum ad hunc Lunae motum dirigunt. Quae sit horum verborum sententia, etiam mediocriter Latine intelligenti perspicuum est. Quintusdecimus Lunae est plenilunium. Quinis denis diebus, inquit, Indi describunt menses suos, non utique a plenilunio, quanuis quintusdecimus dies Lunae sit plenilunium. Nam si quinis denis diebus eorum menses descripti sunt, aliquis merito suspicari posset, aut a plenilunio, aut a iugo. Hanc certe esse mentem Curtij nemo, qui Latine scit, negauerit. At prophetica censura negat nos intellexisse, quod orbem impletum interpretemur plenilunium. id enim significare integrum Lunae circulum, id est, quando Luna totum Zodiaci circulum peragrauerit. Quis unquam vel mediocriter Latine sciens, ubi de Luna sermo est, orbem plenum, aut orbem impletum, de alio interpretatur, quam de corpore ipsius Lunae? Insigniter Latinitatis imperitum esse oportet, qui aliter senserit. Caput IX Plinij libri II totum est de Luna, eiusque configurationibus. Ibi orbe pleno, orbe dimidio quid aliud, quam πανσέληνον, καὶ διχότομον designat? quis tam hebes, tam nullius in Latino sermone usus, ut aliter pronunciare audeat? Ad verbum Basilius sermone VI ἑξαημέρου, ὅταν ἐκπληρώσῃ τὴν ἑαυτῆς ἀσπίδα. Quum orbem suum impleuerit. De plena Luna loquitur. Apud Senecam in Hippolyto:
Clarior quanto micat orbe pleno,
Quum suos ignes coeunte cornu
Iunxit — & orbem, & complere dicunt boni scriptores, quum de circuitu planetarum loquuntur: sed cum delectu, Orbem conficere, circuitum peragere. Cicero: Sol annuos cursus conficit
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Referencias cruzadas
- O 'propheta' polemicamente atacado nesta página é o adversário de Scaliger — provavelmente Sethus Calvisius ou, mais provavelmente, o jesuíta que escreveu o livro chamado διοπτής ('espião'). Pelo contexto (defesa contra acusações de fabricação contra o De Emendatione, datado de 1606), trata-se quase certamente de Johannes van der Beke / Giovanni Lorino ou outro crítico jesuíta; identidade exata não confirmada na página.
- O número '156 anos' para Belésis/Nabonassar é apresentado por Scaliger como reductio ad absurdum sarcástica da identificação proposta pelo adversário, não como dado cronológico próprio.
- A figura 'LIIII annis' (54 anos de discrepância na Epocha do mundo) — verificar se a leitura é 54 e não outro número, dado o desgaste tipográfico da linha superior.
- διοπτής no original grego significa 'espião/observador'; é título ou epíteto irônico que Scaliger dá ao livro adversário.
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