De Emendatione Temporum · Joseph Scaliger (1583)
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Português

já fundara. Estas coisas certamente são assim. Pois não pôde haver erro na notação dos anos dos Reis de Tiro, visto que com tanto escrúpulo o tempo da vida e do reinado foi observado em cada um dos reis. Quanto à fábula da pele do touro, donde os gregos disparatam ter-se chamado Birsa, não nos detemos mais com ela do que com a fábula da cabeça de boi achada naquela cidadela, a qual transmitiu Justino, ou da cabeça de cavalo, sobre a qual o mesmo e Virgílio testemunham, donde escreve Estêvão que se chamou Κακκάβη, e que nessa língua púnica significa cabeça de cavalo. Sabemos, em moedas antiquíssimas de Cartago, ter sido cunhada de um lado uma προτομὴν ἵππου (a parte dianteira de um cavalo) e do outro a cabeça de Cartago.

Διδώ ] Faltava no grego. Repusemos a partir de Rufino. אֱלִישָׁה Elissa foi o nome verdadeiro. דידה Dido é hipocorístico, próprio das amas. Seu masculino é דוד Davi. Sérvio, filho de Modius: "Dido, porém, foi antes chamada pelo nome de Elissa; mas, depois de sua morte pelos Púnicos, foi chamada Dido; isto é, mulher viril em língua púnica." Certamente a língua púnica era então quase hebraica. Mas em hebraico Dido nada significa de tal. Os gregos e latinos, todavia, sobre línguas estrangeiras inventam muitas coisas absurdamente.

Καρχηδόνα ] Solino: "De Hadramito e de Cartago o povo fundador procede de Tiro. Mas o que livros verídicos transmitiram sobre Cartago, exporei aqui. Esta cidade, como Catão afirma em discurso senatorial, quando o rei Hiarbas dominava as coisas na Líbia, a mulher Elissa edificou-a domo Phoenix, e chamou-a Karthada: o que em língua fenícia significa cidade nova. Logo, traduzido o termo em palavra púnica, ela mesma foi chamada Elissa, e aquela, Cartago: que foi destruída setecentos anos depois de ter sido edificada." Assim ele: nessas palavras há erros, alguns do autor, outros dos copistas. Pois que é "domo Phoenix"? Devia certamente ter dito: Elissa, de nação fenícia, da casa (domo) Tiro. Pois não se diz "Demóstenes da casa grego", mas "Demóstenes de nação grego". Quando, porém, se acrescenta domo, não se segue imediatamente que tenha nascido ali. E de fato a expressão domo se acrescenta a cidades, não a regiões. Assim em inscrições antigas lemos: domo Arretio, domo Ateste, domo Karthagine, domo Brixia. Eu preferiria: "Phoenissa mulier, domo Tyro extruxit" (mulher fenícia, da casa Tiro, edificou). E esta é culpa de Solino: o resto erraram os copistas. Pois há que ler: "Mox sermone verso Karthago dicta est" (logo, traduzido o termo, foi chamada Cartago), sentença clara, suprimindo o restante, que foi inserido perversamente por sabichões, ainda que o erro pareça antiquíssimo. Sem dúvida é assim. Quanto ao que diz de Hadramito, confirma-se pela origem do vocábulo, que é claramente púnico: חֲצַר־מָוֶת. Mas em árabe melhor حضرموت, com sinal sobreposto à segunda letra, de modo a ser Hadramuth. Assim também foi chamado o filho de Joctã, da posteridade de Sem, Gênesis 10.26. Adramyt é, pois, ἔπαυλις Πλούτωνος (morada de Plutão). Pois Mut entre os púnicos era Plutão. Filo de Biblos: "E pouco depois consagra outro filho seu, gerado de Reia, chamado Mut, ao morrer; e a este os fenícios chamam Morte e Plutão." Portanto Adramuto foi assim chamado por causa do trecho pestilento da costa africana, à maneira como em Plauto se diz: "a porta do Aqueronte está em nosso campo". Quanto ao que diz de Karthada, parece ser antes siríaco do que púnico: קרת חדתא ou קַרְתָּא חֲדְתָּא. Mas os próprios púnicos nem na Síria nem na África falaram siríaco. Na Síria usaram o hebraico puro ou muito próximo; na África, sim, uma forma corrompida do hebraico, mas muito diferente do siríaco: o que claramente nos ensina o Pênulo de Plauto. Estêvão transmite que foi chamada καινὴν πόλιν (cidade nova), devendo entender-se

English

had already founded it. These matters indeed stand thus. For no error could enter into the recording of the years of the Kings of Tyre, since with such great scrupulousness the duration of the life and reign of each king was recorded. As for the fable of the bull's hide, from which the Greeks idly claim Byrsa was named, we dwell on it no more than on the fable of the ox's head found in that citadel, which Justin reports, or of the horse's head, to which the same author and Virgil testify, whence Stephanus writes that it was called Κακκάβη, and that in the Punic tongue this signifies a horse's head. We know that on the most ancient coins of Carthage there was struck on one side a προτομὴν ἵππου (forepart of a horse), and on the other the head of Carthage.

Διδώ ] This was missing in the Greek. We have restored it from Rufinus. אֱלִישָׁה Elissa was the true name. דידה Dido is a diminutive, used by nurses. Its masculine is דוד David. Servius son of Modius: "Dido was previously called by the name Elissa; but after her death she was called Dido by the Carthaginians; that is, a manly woman in the Punic tongue." Certainly the Punic tongue was then almost Hebrew. In Hebrew, however, Dido signifies no such thing. But the Greeks and Latins fabricate many absurd things about foreign languages.

Καρχηδόνα ] Solinus: "The founding people of Hadrumetum and Carthage came from Tyre. But what truthful books have handed down about Carthage I shall here relate. This city, as Cato affirms in a senatorial speech, when King Hiarbas held sway in Libya, the woman Elissa built domo Phoenix, and called it Karthada: which in the Phoenician tongue expresses 'new city.' Soon, the term being turned into the Punic word, she herself was called Elissa, and the city Carthago: which was destroyed seven hundred years after it had been built." Thus he: in which some things are errors of the author, others of the copyists. For what is "domo Phoenix"? It should rightly have been said: Elissa, of Phoenician nation, of the house (domo) Tyre. For one does not say "Demosthenes of the house Greek," but "Demosthenes of Greek nation." When domo is added, it does not immediately follow that he was born there. And indeed the term domo is added to cities, not to regions. So in ancient inscriptions we read: domo Arretio, domo Ateste, domo Karthagine, domo Brixia. I should have preferred: "Phoenissa mulier, domo Tyro extruxit" (a Phoenician woman, of the house of Tyre, built it). And this is Solinus's own fault: the rest the copyists got wrong. For one must read: "Mox sermone verso Karthago dicta est" (Soon, the term being translated, it was called Carthago), the sense being clear, with the rest deleted, which was wrongly inserted by smatterers, although the error appears to be very ancient. Beyond doubt this is so. As for what he says about Hadrumetum, this is confirmed by the origin of the word, which is plainly Punic: חֲצַר־מָוֶת. But better in Arabic حضرموت, with a mark superscribed over the second letter, so that it reads Hadramuth. Thus too was named the son of Joktan, of the lineage of Shem, Genesis 10:26. Adramyt is therefore ἔπαυλις Πλούτωνος (the dwelling of Pluto). For Mut among the Carthaginians was Pluto. Philo of Byblos: "And not long after he consecrated another of his sons, born of Rhea, called Muth, when he died; and the Phoenicians call this Death and Pluto." Hence Adramutum was so called because of the pestilential stretch of the African coast, as it is said in Plautus: "the gate of Acheron is in our field." As for what he says about Karthada, it seems rather Syriac than Punic: קרת חדתא or קַרְתָּא חֲדְתָּא. But the Carthaginians themselves spoke Syriac neither in Syria nor in Africa. In Syria they used pure Hebrew or something very close; in Africa, indeed a corrupted form of Hebrew, but very different from Syriac: which Plautus's Poenulus plainly teaches us. Stephanus reports that it was called καινὴν πόλιν (new city), to be understood

Latim (transcrito)

iam condidit. Haec profecto ita se habent. Nam error non potuit incidere in notatione annorum Regum Tyri, cum tanta religione, & vitae & regni tempus in singulis regibus obseruatum sit. At fabulam taurini tergi, vnde Byrsam dictam nugantur Graeci, non magis moramur, quam fabulam de capite bubulo in ea arce inuento, quod prodidit Iustinus, aut capite equino, quod idem & Virgilius testantur, vnde Κακκάβην dictam fuisse scribit Stephanus, eoque lingua Poenica equinum caput significari. Nos scimus in Numismatis Karthaginis vetustissimis ex vna parte cusum esse προτομὴν ἵππου, ex altera caput Karthaginis.

Διδώ ] Aberat in Graeco. Reposuimus ex Ruffino. אֱלִישָׁה Elissa fuit nomen verum. דידה Dido est ὑποκοριστικόν, nutricum. Eius masculinum est דוד Dauid. Seruius F. Modij: Dido vero nomine Elissa antea dicta est: sed post interitum a Poenis Dido appellata fuit; id est virago Punica lingua. Certe Punica lingua tunc pene erat Hebraica. In Hebraismo autem Dido nihil tale significat. Sed Graeci & Latini de peregrino sermone satis multa praepostere comminiscuntur.

Καρχηδόνα ] Solinus: Hadramyto & Karthagini auctor est a Tyro populus. Sed quae super Karthagine veraces libri prodiderunt, hoc loco reddam. Vrbem istam, vt Cato in oratione Senatoria autumat, quum Rex Hiarbas rerum in Libya potiretur, Elissa mulier extruxit domo Phoenix, & Karthadam dixit: quod Phoenicum ore exprimit ciuitatem nouam. Mox sermone verso in verbum Punicum, & haec Elissa, & illa Karthago dicta est: quae post annos septingentos exciditur, quam fuerat extructa. Haec ille: in quibus quaedam sunt ab auctore, quaedam a librariis peccata. Nam quid est, domo Phoenix? Sane dicendum erat, Elissa natione Phoenissa, domo Tyro. Neque enim dicitur, Demosthenes domo Graecus, sed, Demosthenes natione Graecus. Cum autem adiicitur domo, non statim sequitur eum natum ibi. & quidem vox domo additur vrbibus, non regionibus. Sic in veteribus inscriptionibus legimus, domo Arretio, domo Ateste, domo Karthagine, domo Brixia. Ego maluissem, Phoenissa mulier, domo Tyro extruxit. Atque haec culpa est Solini: reliqua peccarunt librarij. Nam legendum: Mox sermone verso Karthago dicta est, sententia perspicua, deletis reliquis, quae interiecta sunt perperam a sciolis, quanquam vetustissimus error videtur. Hoc proculdubio ita est. Iam quod dicit de Hadramyto, id origine verbi confirmatur, quae plane Punica est. חֲצַר־מָוֶת. Sed Arabice melius حضرموت apice in secunda litera superscripto, vt sit Hadramuth. Ita etiam vocatus filius Iectan de posteritate Sem, Genes. x. 26. Est autem Adramyt ἔπαυλις Πλούτωνος. Nam Mut Poenis erat Pluto. Philo Biblienfis: καὶ μετ' οὐ πολὺ ἕτερον αὐτοῦ παῖδα ἀπὸ Ῥέας ὀνομαζόμενον Μῦθ ἀποθανόντα ἀφιεροῖ. θάνατον δὲ τοῦτον καὶ Πλούτωνα Φοίνικες ὀνομάζουσιν. Ergo Adramutum dictum ob pestilentem tractum orae Africanae, quomodo apud Plautum dictum est, Acherontis ostium est in agro nostro. De Karthada quod dicit, videtur potius Syriacum esse, quam Poenicum. קרת חדתא vel קַרְתָּא חֲדְתָּא. Sed ipsi Poeni neque in Syria, neque in Africa Syriace loquuti sunt. In Syria mere Hebraica aut proxima vsi sunt: in Africa deprauata quidem ex Hebraismo, sed longe alia a Syriaca: quod plane nos docet Poenulus Plautina. Stephanus tradit καινὴν πόλιν dictam, intelligendum

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Notas do tradutor: Página 31 da seção 'Notae' (notas), comentário filológico sobre Cartago, Dido/Elissa, Birsa, Hadramito e a língua púnica. Cita Justino, Virgílio, Estêvão de Bizâncio, Sérvio, Solino, Catão, Filo de Biblos, Plauto. Sem conteúdo astronômico ou cronológico numérico nesta página.

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