De Emendatione Temporum · Joseph Scaliger (1583)
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Português

Cristo padeceu a 8 das calendas de abril. As Igrejas Gálicas, em qualquer dia em que caísse o 8 das calendas de abril, celebravam a Páscoa nesse dia. O autor é Beda, Do Cômputo do Tempo, capítulo 44. Daí nasceram contendas que, desde o tempo do Bispo Romano Victor até aqui, agitaram a Igreja, até que, pelos padres de Niceia, se acorreu a ambos os males. Estes compuseram a primeira divergência, que estava nos embolismos, de tal modo que estabeleceram como décima quarta pascal aquela que viesse logo depois do equinócio, que então se achava em 21 de março. A outra divergência, por causa da qual ódios capitais tinham crescido nas Igrejas, suprimiram-na contudo, determinando que a celebração da Páscoa fosse naquele domingo que seguisse o dia décimo quarto pascal. Assim foram abolidos por consenso niceno duas coisas: a diversidade dos embolismos e a diversidade do dia. Pois antes não havia concordância entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Os Europeus tinham a razão do [πάσχα ἰσαστάσιμον] "páscoa equinocial"; os Asiáticos a do [πάσχα συνωραῖον?] "páscoa simultânea [com os judeus]", a que os cristãos chamam [πάσχα νομικὸν] "páscoa legal" e [πάσχα ἰουδαϊκὸν] "páscoa judaica". A este gênero de homens foi dado o nome [αἵρεσις τεσσαρεσκαιδεκαπτιστῶν[?]] "heresia dos quartodecimanos", como já dissemos. Entretanto, tampouco logo após o sínodo niceno se moderou a questão das dissensões. Já seiscentos milhares de ciclos, octaeteridas, tessareskaideceteridas publicados por todos os ociosos nada mais revelavam do que a ignorância dos autores. O ciclo lunar, de fato, mostrava as épocas das décimas quartas pascais, as quais os computistas chamam Termos Pascais. Mas sempre que esses mesmos termos caíam em domingo, a maior parte das Igrejas celebrava na própria décima quarta a [πάσχα διαστάσιμον] "páscoa distanciada"; os demais, porém, transferiam-na para o domingo imediatamente seguinte. Assim não havia fim para a discórdia. Finalmente, pareceu aos computistas que essas controvérsias não podiam ser resolvidas senão instituindo, à semelhança dos Termos Pascais, também um certo período ou ciclo de dias da semana, com cujo giro toda a razão dos dias da semana e dos Termos Pascais voltasse em círculo. O primeiro de todos, ao que sabemos, que empreendeu tal coisa foi Cirilo, bispo de Alexandria, tendo engendrado um período de noventa e cinco anos, ao qual por isso chamou [ἐνενηκονταπενταετηρίδα] "período de noventa e cinco anos"; e, acrescentadas as razões da festividade pascal, publicou-o para as Igrejas. O início desse período erguia-se a partir do ano nonagésimo sétimo de Diocleciano, da era vulgar de Cristo 381, sendo Póstumio Siágrio V. C. [cônsul].

English

Christ suffered on the 8th day before the Kalends of April. The Gallican Churches, on whatever day the 8th day before the Kalends of April fell, celebrated Easter on that day. The authority is Bede, On the Reckoning of Time, chapter 44. From this arose contentions which, from the times of Victor, Bishop of Rome, have agitated the Church down to our day, until both evils were met by the Nicene fathers. These composed the first difference, which concerned embolisms, in such a way that they decreed the Paschal fourteenth to be that which followed immediately after the equinox, which at that time was found on 21 March. The other difference, on account of which capital enmities had grown in the Churches, they nevertheless removed by appointing the celebration of Easter on that Sunday which should follow the fourteenth paschal day. Thus two things were abolished by the Nicene assent: the diversity of embolisms and the diversity of day. For previously there was no agreement between the Churches of the East and of the West. The Europeans followed the reckoning of [πάσχα ἰσαστάσιμον] "equinoctial Passover"; the Asians that of [πάσχα συνωραῖον?] "concurrent Passover," which the Christians call [πάσχα νομικὸν] "legal Passover" and [πάσχα ἰουδαϊκὸν] "Jewish Passover." To this sort of men was given the name [αἵρεσις τεσσαρεσκαιδεκαπτιστῶν[?]] "heresy of the Quartodecimans," as we have already said. Nor, however, was the matter of dissensions immediately settled after the Nicene synod. By now six hundred thousand cycles, octaeterides, and tessareskaidecaeterides published by all the idle were disclosing nothing other than the ignorance of their authors. The lunar cycle indeed showed the epochs of the Paschal fourteenths, which the computists call Paschal Terms. But whenever these terms themselves fell on a Sunday, the greater part of the Churches celebrated on the fourteenth itself the [πάσχα διαστάσιμον] "separated Passover"; the rest, however, transferred it to the following Sunday. Thus there was no end of dissent. At length it seemed to the computists that these disputes could be resolved in no other way than if, like the Paschal Terms, so also a certain period or cycle of weekdays should be instituted, upon whose revolution the whole reckoning of weekdays and of Paschal Terms would return in a circle. The first of all, so far as we know, to undertake this was Cyril, Bishop of Alexandria, having devised a period of ninety-five years, which for that reason he called [ἐνενηκονταπενταετηρίδα] "a ninety-five-year period"; and, with the reckonings of the Paschal feast added, he published it for the Churches. The beginning of this period arose from the ninety-seventh year of Diocletian, AD 381 of the common era of Christ, in the consulship of Postumius Syagrius V.C.

Latim (transcrito)

Christum passum VIII Kal. Aprilis. Gallicanae Ecclesiae, quacunque die VIII Kal. Aprilis fuissent, in ea die Pascha celebrabant. Auctor Beda de Temporum ratione, cap. XLIIII. Hinc contentiones ortae a temporibus usque Victoris Episcopi Romani hactenus Ecclesiam agitarunt, donec utrique malo per patres Nicenos occurreretur. Hi differentiam primam, quae erat in embolismis, ita composuerunt, ut Paschalem quartamdecimam eam statuerent, quae proxime aequinoctium sequeretur, quod tunc deprehendebatur in XXI Martii. Alteram differentiam, propter quam capitalia odia in Ecclesiis succreuerant, nihilominus sustulerunt, indicta celebritate Paschatis in eam Dominicam, quae XIIII diem paschalem sequeretur. Ita duo sublata à confessu Niceno, diuersitas embolismorum, & diuersitas diei. Nam antea non conueniebat inter Ecclesias Orientis, & Occidentis. Europaei πάσχατος ἰσασασίμου rationem habebant: Asiani πάσχατος σαυρασίμου: quod Christiani πάσχα νομικὸν & πάσχα ἰουδαϊκὸν vocant. Huic generi hominum nomen factum αἵρεσις τεσσαρεσκαιδεκαπτιστῶν[?], ut iam diximus. Neque tamen statim post Nicenam synodum a dissensionibus temperatum. Iam sexcenta millia cyclorum, Octaeteridum, Tessareskaedecaeteridum ab omnibus otiosis edita nihil aliud quam inscitiam auctorum detegebant. Cyclus quidem Lunaris ostendebat epochas quartarum decimarum Paschalium; quos Terminos Paschales Computatores vocant. Sed quotiescunque ipsi termini in dominicam incidebant, maxima pars Ecclesiarum in ipsa quarta decima πάσχα διαστάσιμον celebrabant: reliqui autem in dominicam proxime sequentem transferebant. Ita nullus finis erat dissentiendi. Tandem Computatoribus visum non aliter has lites componi posse, quam si ut Terminorum Paschalium, ita feriarum quaedam periodus, aut cyclus institueretur, quo vertente, omnis ratio feriarum & terminorum Paschalium in orbem rediret. Primus omnium, quod quidem sciamus, eam rem aggressus est Cyrillus Alexandriae Episcopus, excogitata annorum nonaginta quinque periodo, quam ob id ἐνενηκονταπενταετηρίδα vocauit, eamque additis festiuitatis Paschalis rationibus Ecclesiis publicauit: cuius periodi initium consurgebat ex anno Diocletiani nonagesimo septimo, Christi vulgari 381, Postumio Syagrio V. C.

Tabela 1

Exposição do Período de Teófilo e Cirilo: ciclo solar e letra dominical
Cyclus SolisLitera Domin.Cyclus SolisLitera Domin.
12G20D
23G3D
6G14D
17A G25E D
28A8E
11A19E
22A2E
5B A13F E
16B24F
27B7F
10B18F
21C B1G F
4C
15C
26C
9D C

Eventos astronômicos detectados

equinox: Paschalem quartamdecimam eam statuerent, quae proxime aequinoctium sequeretur, quod tunc deprehendebatur in XXI Martii · data: equinócio vernal em 21 de março, época do Concílio de Niceia (325 d.C.) · fonte: Beda, De Temporum ratione, cap. 44
Flags de incerteza (pontos para revisão humana)
Notas do tradutor: A página trata da controvérsia pascal pós-nicena e da instituição do ciclo de 95 anos (ἐνενηκονταπενταετηρίς) de Cirilo de Alexandria. A tabela lateral mostra a correspondência entre os 28 anos do ciclo solar e as letras dominicais dentro do período teofílico-cirílico. A atribuição do início do ciclo ao consulado de Postúmio Siágrio (381 d.C.) é controversa na literatura; Scaliger aqui acompanha a tradição que remonta o ciclo a Teófilo.

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